A ORIGEM DA CERÂMICA

Introdução

Coeva do fogo, a cerâmica — do grego “kéramos” , ou “terra queimada” – é um material de imensa resistência, sendo frequentemente encontrado em escavações arqueológicas. Assim, a cerâmica vem acompanhando a história do homem, deixando pistas sobre civilizações e culturas que existiram há milhares de anos antes da Era Cristã.

Hoje, além de sua utilização como matéria-prima de diversos instrumentos domésticos, da construção civil e como material plástico nas mãos dos artistas, a cerâmica é também utilizada na tecnologia de ponta, mais especificamente na fabricação de componentes de foguetes espaciais, justamente devido a sua durabilidade.

A origem da cerâmica

“O primeiro artesão foi Deus que, depois de criar o mundo, pegou o barro e fez Adão.” (ditado popular paraibano)

Estudiosos confirmam ser, realmente, a cerâmica a mais antiga das indústrias. Ela nasceu no momento em que o homem começou a utilizar-se do barro endurecido pelo fogo. Desse processo de endurecimento, obtido casualmente, multiplicou-se. A cerâmica passou a substituir a pedra trabalhada, a madeira e mesmo as vasilhas (utensílios domésticos) feitas de frutos como o coco ou a casca de certas cucurbitácias (porongas, cabaças e catutos) .

As primeiras cerâmicas que se tem notícia são da Pré-História: vasos de barro, sem asa, que tinham cor de argila natural ou eram enegrecidas por óxidos de ferro. Nesse estágio de evolução ficou a maioria dos índios brasileiros. A tradição ceramista — ao contrário da renda de bilros e outras práticas artesanais — não chegou com os portugueses ou veio na bagagem cultural dos escravos. Os índios aborígines já tinham firmado a cultura do trabalho em barro quando Cabral aqui aportou. Por isso, os colonizadores portugueses, instalando as primeiras olarias nada de novo trouxeram; mas estruturam e concentraram a mão-de-obra. O rudimentar processo aborígine, no entanto, sofreu modificações com as instalações de olarias nos colégios, engenhos e fazendas jesuíticas, onde se produzia além de tijolos e telhas, também louça de barro para consumo diário. A introdução de uso do torno e das rodadeiras parece ser a mais importante dessas influências, que se fixou especialmente na faixa litorânea dos engenhos, nos povoados, nas fazendas, permanecendo nas regiões interioranas as práticas manuais indígenas. Com essa técnica passou a haver maior simetria na forma, acabamento mais perfeito e menor tempo de trabalho.

Quando os populares santeiros, que invadiram Portugal no século XVIII, introduziram a moda dos presépios, surgiu a multidão de bonecos de barro de nossas feiras. Imagens de Cristo, da Virgem, Abades, de santos e de anjos começaram a aparecer. Os artistas viviam à sombra e em função da Igreja ou dos seus motivos. O mais célebre artista dessa fase foi Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

Pouco a pouco — da mesma forma que aconteceu com o teatro católico medieval que foi transformado no Brasil em espetáculos populares como as pastorinhas, o bumba-meu-boi e os mamulengos — a arte do barro foi se tornando profana. Ao final, era o seu meio que os artistas começaram a retratar: simplificaram as formas que passaram apresentar, sem nenhum artifício, tipos, bichos, costumes e folguedos.

Origem no Brasil

No Brasil, a cerâmica tem seus primórdios na Ilha de Marajó. Na segunda metade do Oitocentos, a ciência arqueológica voltou-se para territórios e continentes além de Grécia e Roma; assim, ocorreram escavações na Amazônia, especialmente na ilha de Marajó sendo o centro de Santarém o mais generoso com os pesquisadores.

Os arqueólogos consideraram os vestígios e pretendiam estabelecer as origens dos povos amazonense e várias foram as hipóteses: nômades dos Andes, vindos do Peru fugindo da conquista espanhola ou da América Central, e com maiores possibilidades, das Antilhas. Outra seria um êxodo começado no Grande Chaco e escavações em Quito têm encontrado provas de que as grandes culturas do Peru e México tiveram origem no Equador. Essas pesquisas começaram em 1958, quando foi descoberta uma aldeia datável de cerca de 5 mil anos na cidade costeira de Valdívia; e desde então mais aldeias do mesmo período foram descobertas no interior, na direção da Amazônia, com cerâmicas, instrumentos e objetos decorativos revelando um nível insuspeitado de sofisticação. E nas primeiras descobertas geográficas os europeus encontraram povoados que são descritos com bastante reserva.

Mesmo o índio desconhecendo o torno e operando com instrumentos rudimentares, conseguiu criar uma cerâmica de valor, que dá a impressão de superação dos estágios primitivos da Idade da pedra e do bronze.

Foram identificadas várias fases da cerâmica brasileira , que foram divididas em:

▪ Ananatuba: a mais generalizada e provavelmente atribuível às primeiras sedimentações datáveis entre o séc. VII e o X a.C. , apresentando uma técnica plenamente desenvolvida, povo dividido em tribos, cada um ocupando uma única maloca e abrigando uma centena de moradores;

▪ Mangueiras: pertencente ao grupo que sucessivamente prevaleceu sobre o primitivo Ananatuba, sua duração estimada entre o séc. IX e o XII;

▪ Formiga: outro grupo coevo deste último, mas com a cerâmica mais pobre;

▪ Aruã :denominação dada por pesquisadores europeus a um grupo que vivia em pequenas ilhas no Amazonas, tudo indicando uma cultura bastante singular, em face do uso de urnas funerárias, um ritual de notável contribuição na determinação de fases;

▪Marajó: é um capítulo à parte. Ela foi elaborada por povos que habitaram a bacia Amazônica do ano 980 A.C. até o séc. XVIII e é arqueológica. Através dela a gente pode observar a evolução, o apogeu e a decadência da cultura de um povo. A riqueza de detalhes, a exuberância das cores, a variedade dos objetos (como fusos, colheres, tangas, bancos, estatuetas e adornos) , as técnicas de brunimento (alguns feitos com conchas) foram perdendo qualidade com o tempo. Os grandes aterros de louçaria e estatuetas encontrados na ilha de Marajó mostram bem esta falência. Hoje, o que existe de cerâmica marajoara pode ser visto no Museu Goeldi, em Belém. Não tem nada haver com as peças que encontram-se nas feiras de artesanato ou nas lojas dos grandes centros que dizem vender peças folclóricas. Na maioria, esses objetos são industrializados e não passam de tentativas grosseiras de cópias, sem maior significado cultural.

Descrição da técnica

As artes cerâmicas moldam minerais das entranhas da terra (metais, barro, argila, areia, etc.) dando origem a utensílios, peças ornamentais, urnas funerárias e os mais variados produtos da imaginação do homem.

Ela demanda calma e circunspeção: a argila e os elementos de liga devem ser cuidadosamente escolhidos e o manejo deve ser paciente porque ela oferece tantas possibilidades quanto variações e rupturas após a queima; assim uma peça cerâmica contém além de todos esses ingredientes e cuidados, a apreensão, o suspense e o ardor.

Ela pode ser manufaturada ou industrializada e sua matéria-prima principal é a argila, o caulino, o barro, a pasta. Modelada e cozida ao sol, em fogueiras ou em fornos aquecidos a temperatura conveniente, o produto pode ter cor natural, preto ou em variações que ocorrem do amarelo ao vermelho, podendo ainda, ser revestido de pintura, composta de silicalcalinos ou vernizes à base de chumbo ou estanho, formando um esmalte brilhante e resistente com ricas variações.

Existem diversas argilas nas quais se podem adicionar outros elementos para obter maior plasticidade e coesão e ainda um bom cozimento.

As argilas são rochas normalmente de origem sedimentares e provenientes da alteração de rochas silicadas. Os minerais que as constituem são fundamentalmente a caulinite, a ilite ou a montemorilonite. Do ponto de vista químico, as argilas são aluminosilicatos hidratados apresentando espécies muito variadas de fórmula genérica

O3, al quatro . SiO2. H2O.

Encontra-se na natureza em estado de relativa pureza ou associadas aos mais diversos materiais, podendo adquirir, neste caso, propriedades e designações específicas. As Margas, por exemplo, são argilas com um elevado teor de calcário.

Geologicamente e quanto ao modo de formação das suas jazidas, as argilas classificam-se nos dois seguintes grupos:

Argilas primárias: são as argilas que se mantiveram no seu local de formação. Apresentam-se por vezes associadas a restos da rocha de origem (granitos, gneisses ou feldspatos) com um grão relativamente grosso e em massas de cor branca, devida à pureza do ou dos minerais que a constituem. Há jazidas de caulino cujo teor em caulinite chega a atingir 98% .

Argilas secundárias: são as argilas que, arrastadas por agentes naturais como a água, o vento ou mesmo os glaciares, se foram depositando longe do seu local de formação. Desse atribulado transporte resultou o seu grão bem mais fino e também a sua mistura com matérias orgânicas, etc. Podem apresentar-se coradas, ou não. São exemplos de argilas secundárias os barros gordos, os barros vermelhos, etc.

O caulino é uma argila de pureza considerável, capaz de suportar altas temperaturas e de cozedura, em geral bastante branca. É um componente muito importante ou mesmo fundamental de grande parte das pastas cerâmicas, nomeadamente das porcelanas. Sendo ele muito friável, não reúne, por si, só as condições necessárias para uma modelagem conveniente, tendo, para isso, que ser misturado com um barro mais plástico (mais gordo).

É uma matéria-prima muito abundante em grande parte da faixa costeira portuguesa com numerosos pontos de extração e de grade utilização na indústria cerâmica e ainda na do papel. Estes fatores, associados ao preço bastante acessível, tornam-no num material relativamente fácil de obter. Por certo, não haverá nenhuma fábrica de cerâmica que consuma caulino que se negue a vender-lhe pequenas quantidades. É um material muito interessante.

O barro é uma designação genérica na qual foram agrupadas um sem- número de misturas de argilas com as mais variadas espécies de impurezas. Os diversos minerais, os óxidos metálicos e as matérias orgânicas, associados às argilas em variadíssimas proporções, fazem com que as variedades de barros sejam inumeráveis e apresentem características muito distintas, quer em cru quer depois de cozidas. Note que na mesma extração é frequente encontrar tipos de barros muito diferentes consoante, por exemplo, a profundidade a que se escava.

Os barros podem ser classificados:

Segundo à plasticidade em:

▪ BARROS GORDOS – barros excessivamente plásticos, devido à forma, ao arranjo e às pequeníssimas dimensões das partículas que os constituem e por incorporarem percentagens relativamente elevadas de produtos orgânicos. Apresentam problemas à secagem: elevado índice de retração (encolhem demasiado) tendência para o aparecimento de deformações e de fendas.

▪BARROS MAGROS – barros muito menos plásticos, devido ao maior tamanho das partículas argilosas e à presença, em percentagens mais elevadas, de materiais siliciosos ou até calcários. São mais friáveis e, por isso (mesmo quando devidamente humedecidos e amassados), excessivamente < quebradiços> para uma modelação conveniente. Apresentam contudo um melhor comportamento na secagem, nomeadamente no que se refere à resistência a roturas e deformações.

Segundo a coloração que adquirem depois de cozidos:

▪ BARROS DE COZEDURA BRANCA – barros não contendo ou contendo pequeníssimas percentagens de óxidos metálicos. Ficam brancos ou apresentam tonalidades próximas do branco depois de convenientemente cozidos.

É corrente designar-se por barro branco qualquer barro que dê cozedura branca mesmo que a sua cor em cru seja outra (freqüentemente cinzento mais ou menos carregado, até quase preto quando húmido.)

▪BARROS DE COZEDURA CORADA – barros contendo percentagens mais ou menos elevadas de óxidos metálicos que lhe conferem colorações características depois de cozidos.

Os mais frequentes na natureza são designados, genericamente, por barro vermelho, sua cor característica, depois de cozido. Sua utilização se dá com a telha, o tijolo e e quase toda a olaria popular e deve-se sobretudo à presença de óxidos de ferro e de manganês. Quando cru, pode apresentar cores que vão desde o cinzento ao esverdeado, ao azulado, ao amarelo-ocre e até a cores muito próximas das que terá depois de cozido.

A pasta é o material já preparado com que vamos produzir as nossas peças de cerâmica. Diríamos que, só excepcionalmente, ela poderá ser constituída por um único tipo de barro. Normalmente ela é constituída, no mínimo, por duas qualidades de barro diferentes, de modo a assegurar à mistura as qualidades que cada um dos barros, por si só, não possui e por produtos que lhe podem ser incorporados com objetivos muito precisos: emagrecedores, corantes, agentes plásticos, refratários, fundentes, etc.

Esta mistura é amassada com água até se obter um material perfeitamente homogêneo, mole e plástico: uma pasta de fato.

A composição das pastas cerâmicas tem que ter em conta fundamentalmente o tipo de objetos que vão ser produzidos e as exigências da técnica usada no seu fabrico. Assim, uma pasta para modelar pode não ser boa para levantar peças no torno e é óbvio que com uma pasta para tijolo não se podem fazer objetos de porcelana. No caso da indústria, a composição e o controle das pastas é muitas vezes uma tarefa complexa levada a cabo em laboratórios, por técnicos especializados.

Por extensão, a designação pasta foi-se aplicando às preparações que nem sequer se apresentam sob a forma de pasta. Assim, encontram-se pastas líquidas como as barbutinas de enchimento ou as pastas em pó, vendidas em sacos.

A pasta pode ser branca ou colorida por natureza; por sua vez porosa ou compacta; no uso com ou sem revestimento. O revestimento pode ser transparente ou opaco, às vezes exaurindo a permeabilidade das pastas (alcalino, quando empregado principalmente pelos ceramistas da antiguidade; silicioso, terroso, estanífero e outros) é aplicado geralmente com verniz, vitrificado ou esmaltado.

As derivações da cerâmica são:

  • Terracota (opaca ou envernizada);
  • Faiança ou prolífera (esmaltada);
  • Grés (que recebe ambos os revestimentos acima citados);
  • Produtos de olaria e de uso caseiro;
  • Porcelana (translúcida, biscuit, vitrificada, caolínica ou dura) ;

A Terracota é mais empregada como tijolos, ladrilhos, ornamentos para arquitetura, vasos de jardins, etc.

A Faiança compreende as cerâmicas clássicas, de figuras em preto e vermelho; podem ser citadas a cerâmica mulçumana, a grafita italiana, a maiólica. A palavra ´faience´ deriva do nome da cidade de Faenza, centro italiano de cerâmica do período renascentista (séc. XV e XVI ), é de origem francesa. Ela designa produto cerâmico em geral, quando de pasta tenra, envernizada ou de esmalte opaco, revestimento dito de ´vernizes estaníferos´ ou ´ esmalte estanífero´.

Outra derivação da cerâmica é a maiólica, possível derivação de Maiorca (ilha do arquipélago das Baleares no Mediterrâneo, e importante centro de comércio medieval. É uma cerâmica geralmente esmaltada em branco, que teve maior desenvolvimento nas cidades peninsulares de Casteldurante, Castelli, Deruta, Forlí, Gubbio, Pesaro, Siena e Urbino.

A porcelana difere da Faiança intimamente. É feita de uma argila especial chamada caulim que tem o quartzo e o feldspato como componentes; e estes lhe confere características genuínas como a sonoridade, a homogeneidade e a translucidez. As mais famosas jazidas de caulim estão na China, Japão e Alemanha – na região de Limoge e Sèvres.

A técnica de fabrico varia em cada região, mas basicamente pode ser considerada uniforme. Uma das variações de técnica interessante é aquela em que se aplica sobre a pasta crua uma cobertura especial a qual, com o calor do cozimento, confere uma qualidade vítrea ao acabamento, são as peças chamadas de cozidas “en blanc“. As que são cozidas sem receber a cobertura constituem as chamadas em “biscuit“.

A diferença básica entre a técnica europeia e a chinesa reside na aplicação das cores: na Europa ela é pintada e na China é esmaltada (a tinta é um verdadeiro esmalte fixado numa base de óxidos metálicos).

Autoria:

  • Marina Paulino Bylaardt (marinabylaardt@bol.com.br)
  • Marcela da Costa Ferreira
  • Xavier Beve (xmbeve@yahoo.com.br)
  • Regeane Lopes de Carvalho
  • Ana Virgínia Cândio
  • Audrey Melgaço Teixeira

Fonte: https://www.eba.ufmg.br/alunos/kurtnavigator/arteartesanato/origem.html

Com nova pró-reitoria, UFMG reforça dimensão transversal da cultura

Aprovada pelo Conselho Universitário, criação da Procult estava prevista no Plano de Desenvolvimento Institucional

Detalhe de painel da artista Yara Tupynambá instalado no hall do prédio da Reitoria
Lucas Braga | UFMG

Duas décadas depois de sua criação, a Diretoria de Ação Cultural (DAC) mudou de status, transformando-se na Pró-reitoria de Cultura (Procult), conforme resoluções aprovadas pelo Conselho Universitário no último dia 2 de junho e publicadas na edição 2.016 do Boletim. A UFMG torna-se, portanto, uma das quatro universidades brasileiras a contar com uma pró-reitoria exclusiva para a área. Somente as universidades federais de Juiz de Fora (UFJF) e do Cariri (UFCA) e a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) mantinham estruturas semelhantes.

A transformação da DAC ‒ até então órgão assessor da Reitoria ‒ em uma pró-reitoria já estava prevista no Plano de Desenvolvimento Institucional da UFMG (PDI) desde 2013 e era um sonho acalentado há quase 16 anos. O processo de estruturação da mudança foi iniciado há oito anos, o que incluiu uma reforma administrativa e a incorporação da gestão dos espaços culturais vinculados à Reitoria. “A DAC já vinha sendo estruturada para cumprir esse papel”, enfatiza o professor Fernando Mencarelli, vinculado à Escola de Belas Artes (EBA). Ele está à frente da DAC desde 2019, depois de ter sido diretor adjunto no período de 2014 a 2015 e coordenador do Campus Cultural UFMG em Tiradentes, em 2018. Agora, assume o cargo de pró-reitor de Cultura.

Uma das primeiras medidas a serem tomadas pela nova pró-reitoria será a criação do Conselho de Política Cultural, de caráter consultivo, que vai assessorar a elaboração da Política Cultural da UFMG e de um Plano Plurianual de Cultura, por meio de consulta pública, assim como na sua execução. A Procult dará continuidade ao Fórum UFMG de Cultura, realizado desde 2014, caracterizado pela permanente interlocução com a comunidade ‒ em 2021, por exemplo, foi realizado ciclo de 13 fóruns temáticos preparatórios para a elaboração do Plano de Cultura.

A pró-reitora adjunta Mônica Ribeiro, também professora da EBA, lembra que no ano passado foi realizado o primeiro mapeamento cultural da UFMG, cujos resultados devem ser apresentados no início de julho. “Tivemos uma participação expressiva da comunidade acadêmica, e os resultados são muito interessantes. Eles indicam forte presença de estudos dos saberes tradicionais, indígenas e de matriz africana, muitas atividades artísticas e a participação expressiva de estudantes se reconhecendo como agentes culturais”, antecipa.

Segundo ela, o mapa deve ser considerado como o “retrato de um instante” produzido pelas pessoas e grupos que se reconheceram como agentes culturais em determinado momento. “Trata-se de um mapa que reflete um contínuo processo de construção e precisa, portanto, ser atualizado e alimentado. É imprescindível para a construção de uma política pública de cultura na Universidade”, defende a professora.

Fernando Mencarelli e Mônica Ribeiro assumem os cargos de pró-reitor e pró-reitora adjunta
Fernando Mencarelli e Mônica Ribeiro assumem os cargos de pró-reitor e pró-reitora adjunta| Foca Lisboa | UFMG

Ecossistema capilarizado

A dimensão cultural se funde à própria história da constituição da UFMG como Universidade. Um marco importante dessa interseção remonta à incorporação, há 60 anos, do Conservatório Mineiro de Música, instalado na Avenida Afonso Pena, com grande influência na vida cultural de Belo Horizonte. O espaço sediou a Escola de Música até 1997, quando a unidade foi transferida para o campus Pampulha. Hoje, o antigo edifício tombado como patrimônio arquitetônico pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha) integra a complexa rede de espaços de cultura agora sob gestão da Procult.

Além do Conservatório UFMG, integram a rede o Centro Cultural, o Espaço do Conhecimento e o Campus Cultural UFMG em Tiradentes, onde está instalado o Museu Casa Padre Toledo, bem cultural construído no século 18 que recebeu 20 mil visitantes em 2019.

Segundo Mencarelli, um novo ambiente será inaugurado em breve no prédio da Biblioteca Central, no campus Pampulha. Lá será instalado espaço destinado ao acervo artístico da Universidade ‒  conjunto que reúne 1,7 mil obras hoje distribuídas em várias unidades, das quais cerca de 300 estão sob a guarda da Procult ‒, com reserva técnica aberta à visitação pública. “Além dos espaços culturais vinculados à Reitoria por meio da Procult, a UFMG tem um ecossistema cultural muito rico e capilarizado, que será diretamente beneficiado por uma política cultural definida de forma participativa e continuamente atualizada”, afirma.

Apresentação de dança no Festival de Inverno da UFMG
Apresentação de dança no Festival de Inverno UFMG | Foca Lisboa | UFMG

Além da programação contínua de seus espaços culturais, a Procult realiza programas, projetos e eventos artístico-culturais, como o Festival de Inverno, o Festival de Verão, a Feira do Jequitinhonha e o Circuito Cultural, com programação nos campi Pampulha, Saúde e Montes Claros. Também promove ações formativas, como a Formação Transversal em Culturas em Movimento e Processos Criativos. Durante a pandemia, as atividades culturais tiveram continuidade no ambiente virtual e atingiram a marca de 500 mil acessos e 1,5 milhão de pessoas alcançadas nas redes sociais digitais ao longo de 2021.

A reitora Sandra Regina Goulart Almeida afirma que a criação da Procult reflete o entendimento segundo o qual a cultura é uma dimensão transversal na UFMG, parte integrante do processo de formação dos estudantes que está na base do compromisso institucional da Universidade com a sociedade. “A universidade tem um compromisso com a educação, a ciência e a cultura. Nós a entendemos como uma instituição cultural de grande relevância para nossa cidade, nosso estado e nosso país. Nesse sentido, a transversalidade da cultura está presente em todas as áreas do conhecimento ‒ ela é, em si, conhecimento”, afirma Sandra Goulart.

Na avaliação da reitora, a UFMG dá um passo importante na validação da cultura como campo de conhecimento, fundamental na formação cidadã de seus estudantes e de toda a comunidade que a envolve, como direito fundamental assegurado na Constituição de 1988. “A cultura atravessa vários desafios em que a universidade contemporânea se coloca e que são colocados para ela”, afirma.

Para o pró-reitor Fernando Mencarelli, esse ‘atravessamento’ também se expressa na relação com outros agentes culturais da comunidade, como associações e projetos comunitários, na presença em diferentes territórios, não só urbanos, mas também junto às culturas mais periféricas, no interior de Minas Gerais e do Brasil. “Outro aspecto fundamental é a transversalidade pensada na perspectiva pluriepistêmica. Entendemos que, no campo cultural, isso se manifesta na presença cada vez maior de outras formas de conhecimento. As culturas indígenas, afrodiaspóricas, todo esse campo que adentrou a universidade por meio dos saberes tradicionais, além dos saberes artísticos, têm locus privilegiado no campo da cultura”, destaca.

Mônica Ribeiro destaca a menção explícita à valorização dos saberes artístico-culturais nas normas gerais da graduação e da pós-graduação e na Política de Inovação da UFMG, que propõe, no PDI de 2018, a extensão de suas ações para áreas relacionadas à cultura, às artes e às humanidades. Ela recorda, ainda, que em 2002 o Ministério da Educação passou a exigir 200 horas de atividades acadêmico-científico-culturais (AACC) nas licenciaturas. “Existe uma valorização da participação dos estudantes nas mais diversas atividades culturais, para além daqueles conteúdos trabalhados no currículo”, justifica ela. A pró-reitora adjunta menciona também a resolução complementar de 2014 do Conselho Universitário, que incluiu as atividades artísticas no rol de atuação dos docentes, além de pesquisa, ensino, orientação e administração.

Fachada do Conservatório UFMG, edifício tombado como patrimônio arquitetônico pelo Iepha
Fachada do Conservatório UFMG, edifício tombado como patrimônio arquitetônico pelo Iepha | Lucas Braga | UFMG

Protagonismo reconhecido

O protagonismo da UFMG na área da cultura tem alcançado reconhecimento internacional. Em 2020, a experiência de gestão cultural da Instituição foi apresentada no Encontro Nacional Universidade e Cultura, de Portugal e, em 2021, na reunião de cúpula da União Europeia University & Culture European Summit. Ainda no ano passado, a Universidade recebeu a distinção da Associação das Universidades do Grupo Montevidéu (AUGM) por boas práticas de cooperação com governos em três categorias, incluindo a gestão cultural, pela organização do Festival de Inverno.

No âmbito nacional, a UFMG mantém relações estreitas com instâncias da gestão pública da cultura, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Iepha, em nível estadual. A Universidade tem assento nos conselhos estaduais de Política Cultural e de Patrimônio Cultural e no Conselho Municipal de Política Cultural de Belo Horizonte, além de estabelecer convênios com várias prefeituras municipais, como a da própria capital, de Contagem, Tiradentes ‒ sede do campus cultural da Universidade ‒ e de municípios do Vale do Jequitinhonha, onde desenvolve o Programa Polo Jequitinhonha. A UFMG ocupa, ainda, a vice-presidência do Fórum Nacional de Gestão Cultural das Instituições de Ensino Superior (Forcult) e integra a rede de gestores de cultura das instituições públicas de ensino superior de Minas Gerais.

“Com a criação da Procult, a UFMG dá um passo institucional muito importante e se soma a um movimento nacional de fortalecimento da gestão cultural nas instituições públicas de ensino superior, particularmente relevante no atual momento de desmonte das políticas públicas de cultura que se dá, principalmente, no plano federal”, pontua Fernando Mencarelli.

Performance de rua do Festival de Verão da UFMG
Performance de rua do Festival de Verão UFMG | Foca Lisboa | UFMG

Fonte: Portal UFMG | Alessandra Ribeiro.

Biblioteca "Professor Marcello de Vasconcellos Coelho" da Escola de Belas Artes da UFMG