Do Dispositivo Como Experiência (13/05/21 até 14/06/21)

A exposição Do dispositivo como experiência é uma mostra dos alunos da disciplina Tópicos em Fotografia III: Oficina de Câmeras Artesanais, Pinhole e Processos de Fotografia em PB, da Escola de Belas Artes (graduação) da UFMG, ministrada no contexto do meu Estágio Docência (e das atividades de pesquisa e criação desenvolvidas no marco do meu doutorado) em parceria com o orientador do projeto, o Prof Adolfo Cifuentes (PPG-Artes EBA/UFMG) em 2019. A mostra – à qual me reúno não apenas como participante, mas também como organizador – retoma algumas das experiências desenvolvidas durante a disciplina, partindo de um pontos central de ancoragem da minha pesquisa: uma abordagem do dispositivo fotográfico como poética, no contexto da arte contemporânea. 

A fotografia sempre foi um objeto mutante e em intensa transformação no decorrer de sua própria história. Mudanças tecnológicas e evoluções técnicas continuas atuaram sobre o dispositivo fotográfico desde a sua invenção, mas também as mais diversas apropriações e inserções numa multiplicidade permanentemente mutante de usos e funções sociais, culturais, políticas, científicas, econômicas, estéticas, etc marcam a sua história. Hoje, em seus nomadismos, a fotografia se faz quase que onipresente em todos os âmbitos das nossas vidas e rituais individuais e coletivos. As experimentações em busca de uma identidade própria que se deu em todos os meios artísticos – e mais intensamente na fotografia –, durante o período da Arte Moderna, acabaram ironicamente levando a fotografia a uma expansão e contaminação de todos outros meios.

A própria natureza do curso, como convite e abertura a diversos tipos de experimentações com o dispositivo fotográfico, se reflete claramente nesta exposição, apresentando um amplo leque de retomadas e apropriações de técnicas e processos históricos, relacionadas à fotografia de base química (fotogramas, quimigramas, fotografia pinhole, câmeras obscuras, filme de 35 mm…) obsoletas hoje, no contexto das tecnologias digitais, mas que se revelam, nos diversos projetos aqui apresentados, como potente carga poética e crítica em relação aos discursos teleológicos que envolvem novas tecnologias e à própria ideia de uma “arte contemporânea”… contemporânea justamente na medida em que mantém um olhar crítico e poético sobre o seu próprio passado moderno, e na ideia de uma modernidade em cuja construção a fotografia, a imagem fotográfica, forma pontos de ancoragem central na sua construção.

Dirceu Maués

TRILHAS e RASTROS SOLARES. Solargrafias e Analemas. (15/09/2020 até 12/05/2021)

SOLAR TRAILS and TRACES. Solargraphs and analemmas // CAMINOS y HUELLAS SOLARES, Solarigrafías y Analemas // СОЛНЕЧНЫЕ ДОРОЖКИ и СЛЕДЫ, Соларграфия и Аналемма.

Solargrafía: Prática e técnica fotográfica que permite, através de exposições de longo intervalo, registrar o percurso do sol no céu em folhas de papel fotossensível. Na base do procedimento encontra-se uma câmera pinhole fixa na qual se utiliza papel fotográfico como suporte do registro. A folha resultante, após dias, semanas ou meses de exposição, é aprimorada digitalmente e a difusão da imagem é realizada, geralmente, através da Internet. A técnica foi inventada e aperfeiçoada em torno do ano 2000. Porém, o artista belga Dominique Stroobant fez registros pioneiros que datam dos anos 1970/80.

Analema: figura traçada no céu pelas diferentes posições do sol, se observado/registrado desde um mesmo ponto, e num mesmo horário, ao longo de um ciclo anual. Essa figura (analema) desenhada no céu pela trajetória solar descreve uma curva algébrica chamada lemniscata que significa em latim “laços simétricos” e que é o símbolo matemático do infinito: ∞ . Essa espécie de 8 deitado apresentará diversas inclinações e variações nas suas elipses, segundo o horário do dia selecionado, e o local a partir do qual seja realizado o registro fotográfico.

Infelizmente, nos tempos de terraplanismo em que vive hoje o Brasil é necessário lembrar que os planetas são redondos, e que giram ao redor do Sol. Não existem dois pontos nesse globo que tenham a mesma longitude e latitude, cada um é único (coordenadas geográficas de Belo Horizonte: Latitude: -19.8157 (19° 48′ 57″ S / Sul), Longitude: -43.9542 ,(43° 57′ 15″ W / Oeste). Portanto, os registros dessas trilhas solares constituem uma espécie de impressão digital de cada lugar, dando conta da curvatura do globo, das características das suas trajetórias e da inclinação do seu eixo, e gerando assim diversas figuras no traçado das trilhas. O prolongado tempo de exposição que as solargrafias precisam envolve uma série de riscos: umidade, altas temperaturas, chuva, bichos, ou outros fatores podem danificar tanto a câmera pinhole quanto o material fotossensível. Tempestades, tempo chuvoso, céu nublado podem fazer com que o resultado não seja satisfatório ou, simplesmente, que a imagem não seja interessante.

Apesar das diferenças, as solargrafias e os analemas apresentados aqui têm em comum o fato de que os registros do sol na abóbada celeste são contrastados sempre com a paisagem terrestre, seja ela rural ou urbana. Terra, céu, luz e sol se conjugam aqui para nos deleitar estética e sideralmente. Existe outro importante elo comum: a Astrofotografía, que une, como o seu nome indica, duas áreas. Os cultores dessas técnicas e práticas têm, consequentemente, duas grandes filiações: astrônomos e/ou fotógrafos. Fundidos aqui, claro está, numa única e dupla pessoa com diversos graus de amadorismo e especialização numa das duas áreas: fotógrafos que são astrônomos de domingo, ou astrônomos que são fotógrafos de domingo.

No caso da Lulu Ferreira (produtora desta mostra internacional que nos deleita com o registro de trilhas solares registradas em quase vinte países) ela pertence à primeira categoria: fotógrafa profissionalíssima e astrônoma amadoríssima. Grande representante das fotografias de base química no Brasil, e convidada do Espaço f o ano passado, Lulu faz parte desta reduzidíssima confraria mundial de seguidores e cultores do Sol que ela, pessoalmente, procurou, contatou e convidou para que viessem fazer honra e iluminar o Espaço f, e nossa querida EBA, nestes tempos difíceis de pandemia e obscurantismo.

Prof. Adolfo Cifuentes
Coordenador Espaço f, Espaço de Exposições na Área da Fotografia
Departamento de Fotografia e Cinema / Escola de Belas Artes

Espanha e Portugal: Javi Calvo, Luis Salazar, Santos Vicente e José da Silva Oliveira.

1- Javi Calvo (Espanha); 2,3,4 – Luis Salazar (Espanha); 5,6 – Santos Vicente (Espanha); 7,8,9,10,11,12,13 – José da Silva Oliveira (Portugal).

Argentina e Brasil: Kümei Kirschmann, Luiz Fernando Just, Maria Paz Secundini e Lulu Ferreira.

1,2 – Kümei Kirschmann (Argentina); 3,4 – Luiz Fernando Just (Argentina); 5 – Maria Paz Secundini (Argentina); 6,7,8 – Lulu Ferreira (Brasil).

México, Chile e Estados Unidos: Rosalba Bustamante, Valentina López, Jorge Olave Riveros e Jeff Mcconell.

1,2 – Rosalba Bustamante (México); 3,4 – Valentina López (México); 5 – Jorge Riveros (Chile); 6,7,8,9,10,11,12,13,14,15 – Jeff Mcconell (Estados Unidos).

Hungria, Polônia e Romênia: Czaba Kovacs, György Bajmóczy Bicske, Jakub Pietrzyk e Havadi-Nagy-David Istvan.

1,2,3 – Czaba Kovacs (Hungria); 4,5,6,7,8 – György Bicske (Hungria); 9,10,11,12,13,14 – Jakub Pietrzyk (Polônia); 15,16 – Havadi-Nagy-David (Romênia).

Lituânia, Ucrânia e Berlim: Gabrielė Kundrotaitė, Leva Sutkaityte, Žilvinas Kropas, Sergey Kurshpetow e Marek Pozniak.


1 – Gabrielė Kundrotaitė (Lituânia); 2 – Leva Sutkaityte (Lituânia); 3,4,5 – Žilvinas Kropas (Lituânia); 6,7 – Sergey Kurshpetow (Ucrânia); 8 – Marek Pozniak (Berlim).

Estônia, Bielorrússia, Finlândia e Itália: Kristian Saks, Diana Pankova, Tarja Trygg e Isabella Trucco.

1,2,3,4,5 – Kristian Saks (Estônia); 6,7,8,9,10,11,12,13 – Diana Pankova (Bielorrússia); 14,15 – Tarja Trygg (Finlândia); 16,17 – Isabella Trucco (Itália).

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Endereço
Universidade Federal de Minas Gerais Escola de Belas Artes, segundo andar.
Av. Antonio Carlos, 6627.
CEP 31270-901 Belo Horizonte, MG.

Horário
Segunda–Sexta: 7:00–22:00

(Devido à crise global de saúde pública a EBA, e a UFMG estão trabalhando só em modo remoto e portanto as exposições só acontecem na versão on-line.)